Protecionismo chega ao teto na Argentina em eletrodomésticos

Por César Felício | De Buenos Aires

O protecionismo chegou ao teto no setor de eletrodomésticos na Argentina. Depois de uma sucessão de barreiras desde 2004, quase não há mais importações a substituir na chamada “linha branca”. Neste ano, as importações representam apenas 12% do mercado interno de geladeiras e 0,8% do de lavadoras. Há dez anos, os percentuais estavam acima de 50%. No ano retrasado, eram importados respectivamente 30% das geladeiras e 12% das máquinas de lavar.

Na área de eletrônica, onde predomina é a montagem de equipamentos na zona franca da Terra do Fogo, no extremo sul do país, a importação de produtos finais também é residual. Apenas 7% dos televisores e aparelhos de som e 3% dos telefones celulares vendidos na Argentina são trazidos de fora.

O golpe final na participação dos importados no consumo argentino ocorreu ao longo do último ano, com as restrições ao comércio exterior introduzidas pela presidente Cristina Kirchner após sua reeleição, em outubro passado. As importações de eletrodomésticos (utensílios de cozinha e televisores) caíram de US$ 351,4 milhões, no primeiro semestre de 2011, para US$ 199,8 milhões na primeira metade deste ano.

O índice de nacionalização quase inexistente nos celulares fez com que nesse setor as importações crescessem e se deslocassem dos produtos finais para componentes. Segundo relatório da consultoria IES, as importações de peças de telefones celulares subiram de US$ 662 milhões para US$ 985,6 milhões no acumulado dos sete primeiros meses do ano, em 2011 e 2012. A importação de aparelhos celulares despencou de US$ 274,8 milhões para US$ 84,9 milhões.

A política de substituição de importações no país decolou no governo de Néstor Kirchner, marido e antecessor da atual presidente, e há uma série de investimentos da indústria de eletrodomésticos na Argentina para aproveitar o mercado interno protegido.

O Ministério da Indústria relacionou só neste ano cinco ampliações de produção, que somam investimentos de US$ 50 milhões. Em geral, são empresários nacionais associados a marcas estrangeiras. É o caso da Percomin, que fabricará produtos Moulinex, e da Visuar, que fará a linha Samsung.

O crescimento nos últimos anos foi exponencial. A produção de geladeiras passou de 352 mil, em 2004, para 822 mil em 2011. A de máquinas de lavar pulou de 521 mil para 1,2 milhão no mesmo período. Mas não há mais espaço para expansão dessa ordem.

“No próximo ano, a retomada que deve existir com a recuperação do mercado brasileiro e uma safra melhor de grãos deve proporcionar um crescimento econômico que elevará a demanda de eletrodomésticos em 5% a 6%”, avaliou Diego Coatz, economista da União Industrial Argentina (UIA).

Neste ano, a queda das importações está atenuando no setor o efeito da retração do consumo nacional, provocada pelo freio na economia. A venda de eletrodomésticos, linhas branca e marrom, caiu 5,7% nos oito primeiros meses do ano em número de aparelhos comercializados, em comparação com o mesmo período em 2011, de acordo com a IES.

“Para sustentar a demanda nos próximos anos, a Argentina vai depender do mercado doméstico, sobretudo nos setores em que o índice de nacionalização é baixo, o que retira a competitividade do produto argentino”, disse o economista chefe da IES, Alejandro Ovando.

Segundo Ovando, a falta de competitividade é mais nítida nos produtos eletrônicos montados na zona franca da Terra do Fogo. “Montar na Argentina fica mais caro que importar o produto pronto. Estruturalmente, a televisão na Argentina é mais cara que no Brasil, onde a nacionalização é maior, por exemplo”, disse o consultor.

Ontem, em sites de vendas pela internet, a TV LCD de 32 polegadas era comercializada no Brasil pelo equivalente a US$ 550. Na Argentina, por US$ 700. O índice de nacionalização de celulares e televisões oscila em torno de 5% das peças do produto. No caso da linha branca, o percentual sobe para uma faixa entre 50% e 60%.

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