Produtores europeus de açúcar ganham competitividade

A bem-sucedida ação iniciada em 2002 pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio contra exportações subsidiadas de açúcar da União Europeia, e que contou com a adesão da Austrália e da Tailândia, motivou a grande reforma do regime comum europeu para o açúcar.

A decisão final do Órgão de Solução de Controvérsias, de 2005, limitou as exportações subsidiadas europeias a 1,3 milhão de toneladas, fez com que a Comissão Europeia reduzisse o preço mínimo de garantia da beterraba e implementasse leilões pelos quais produtores menos eficientes poderiam vender suas cotas de produção, posteriormente remanejadas para outros produtores, ou eliminadas.

As transformações causadas por essa ação foram profundas para toda a indústria europeia, com o fechamento de dezenas de usinas, a extinção da produção na Grécia, em Portugal, na Irlanda e na Finlândia e a redução significativa na Itália, na Holanda e na Espanha.

As exportações europeias caíram de 6,6 milhões para 2 milhões de toneladas entre 2005 e 2010. O país que mais se beneficiou dessa ação foi o Brasil, que, no mesmo período, aumentou as exportações de 13,3 milhões para 28 milhões de toneladas.

No mês passado, a França comemorou 200 anos de introdução da beterraba açucareira, trazida da Prússia por Napoleão, em 1811, para contornar o bloqueio continental imposto pela Inglaterra.

A Confederação Geral dos Produtores de Beterraba da França promoveu uma reunião especial para comemorar o bicentenário. Uma semana antes do evento, a Direção Agrícola da Comissão Europeia anunciou a intenção de eliminar por completo o sistema de cotas de produção em 2015.

Os produtores franceses são os mais eficientes e competitivos da Europa. Nos últimos cinco anos, se reagruparam, reduziram a área cultivada nas regiões menos produtivas e realizaram enorme esforço para aumentar a produtividade, que subiu de 11,5 para 16 toneladas de açúcar por hectare.

A intenção de eliminar por completo as cotas de produção representa novo choque de liberação e, até que seja implantada, se isso ocorrer, vai encontrar muitas resistências.
Porém a posição relativa de competitividade no mercado mundial dos produtores da França e da Alemanha mudou muito, e melhorou graças à reforma do regime comum europeu e à perda de competitividade do Brasil, que tem vários fatores explicativos, mas tem a valorização do real como o principal.

Em 2002, o diferencial de custo entre o Brasil e a França era de 300%. Atualmente, essa diferença é de aproximadamente 30%. A reforma gerada pela ação do Brasil na OMC foi muito dolorosa, mas permitiu que os produtores europeus tenham atingido um novo patamar de competitividade.

(Plinio Nastari é mestre e doutor em economia agrícola e presidente da Datagro Consultoria; Folha de S.Paulo, 16/12/11)

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