Lupo dribla setor em crise e cresce transformando peça básica em moda

Nova gama de produtos é responsável pelo aumento da produção têxtil. Fábrica em Araraquara, SP, prevê faturamento de R$ 750 milhões em 2012.

Na contramão da crise enfrentada pelo setor têxtil brasileiro, que no primeiro trimestre de 2012 registrou déficit de R$ 1,65 bilhão no comércio exterior, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), a Lupo, empresa de peças íntimas e acessórios de Araraquara (SP), mantém o ritmo acelerado na produção e prevê um faturamento de R$ 750 milhões neste ano. O crescimento esperado deverá ser 12% maior que os R$ 630 milhões de faturamento no ano passado, e pouco menor que os 15% de aumento em 2011, em comparação aos R$ 540 milhões de 2010.

O segredo para o crescimento, segundo a administração, é deixar de encarar as peças básicas que produz como produtos de primeira linha e transformá-las em acessórios de moda. “A Lupo foi para o lado da moda atraímos novos consumidores e clientes com novas cores, elásticos diferenciados, fios tecnológicos e conforto”, afirma o diretor comercial da empresa, Valquírio Cabral Júnior. Além disso, a empresa tem apostado na própria marca e na fabricação de novos produtos para garantir espaço no mercado brasileiro.

Anualmente, a Lupo produz 100 milhões de peças e é na diversificação de produtos que a marca vem apostando. As meias, que começaram a ser produzidos há 91 anos, e que há 10 anos representavam 70% da produção, atualmente são responsáveis por 40% de tudo que é produzido no parque fabril de Araraquara – que será ampliado em mais de 20 mil metros quadrados até agosto, após o anúncio de um investimento de R$ 30 milhões em um novo pátio.

A estratégia por trás do investimento em novos produtos é fidelizar os consumidores em 220 lojas franqueadas e nos mais de 40 mil pontos de venda espalhados pelo país. “O segredo é, mesmo na crise, ter um lançamento todo mês, e é o que fazemos com 15 ou 20 novos produtos lançados a cada 30 dias”, afirma Cabral Júnior.

Lojas temáticas 
Há dois anos, a empresa criou uma nova marca, a Lupo Sport, voltada para roupas e acessórios esportivos, e neste ano deve lançar uma nova coleção de lingeries. “Nós produzimos calcinhas há quatro anos, mas faremos produtos com renda, algo que nunca fizemos”, explica Cabral Júnior, que pretende usar as novas peças para reproduzir pelo país a ideia da loja de roupas íntimas femininas que mantém há mais de um ano na Rua Oscar Freire, um dos centros de comércio mais tradicionais da moda de alto padrão de São Paulo.

A loja é a primeira a seguir uma nova tendência da empresa no mercado, apostando em centros temáticos de comércio. Outro exemplo será lançado em agosto, em Araraquara, com uma megastore da marca esportiva, em um prédio com uma academia personalizada.

O investimento na nova loja é mais um passo para promover o segmento, que começou a ser desenvolvido há cinco anos e acarretou na mudança do logotipo da empresa. “A marca era a mesma há mais de 30 anos, mas não dava uma ideia de movimento e ação, que a empresa buscava no momento”, afirma. A opção foi arredondar a letra L, inspirada no desenho das meias que iniciaram a história da Lupo.

Diretor comercial da Lupo aposta em diversificação para conter crise (Foto: Felipe Turioni/G1)

Efeito Neymar
Outra estratégia do grupo é o investimento em publicidade, que em 2012 deve superar os R$ 20 milhões, um pouco a mais que os R$ 16 milhões do ano passado, quando a empresa fechou um contrato de quatro anos com o jogador Neymar. Além na aposta do craque do Santos, a Lupo já investiu 50% da verba em anúncios no horário nobre de televisão e em merchandising em novelas.

“A marca está sempre aparecendo nos uniformes do Divino Futebol Clube (time que aparece na novela “Avenida Brasil”) e isso é muito importante”, diz o executivo. Além da marca no time de futebol fictício, a Lupo patrocina 32 times brasileiros, incluindo o Guarani, que disputou com o Santos de Neymar a final do Campeonato Paulista, além da Portuguesa, que subiu à série A1 do Campeonato Brasileiro.

A criação da nova marca não teme os outros nomes esportivos presentes no país, principalmente internacionais, que possuem produtos fabricados pela Lupo. A fábrica mantém um contrato assinado há mais de oito anos com a Nike, para a produção de meias. “Isso não quer dizer nada e não é um risco, a Nike representa 4% do nosso faturamento”, comenta. A empresa fabrica 5 milhões de pares para a empresa norte-americana por ano.

“Claro que enfrentar Nike, Adidas, Reebok não é fácil, mas tenho como vantagem 40 mil pontos de vendas”, compara, pensando no mercado interno para desbancar a competição internacional na produção têxtil, principal responsável pela crise no setor. “Nosso negócio é muito mais demarcar território aqui no Brasil que tentar qualquer coisa lá fora, porque não dá pra brigar com tanto encargo menor”.

Linha de produção é formada por 80% de mulheres (Foto: Felipe Turioni/G1)

Caso isolado na crise
Para o superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (Abit), Fernando Pimentel, o caso da Lupo é isolado em meio à crise graças à proximidade com o consumidor. “Isso é importante e legítimo, mas não podemos imaginar que as outras 45 mil empresas do setor vão conseguir se concentrar no varejo também, e o mundo tem mais ofertadores que distribuidores”, explica.

Segundo ele, as dificuldades encontradas pelo setor têxtil brasileiro na disputa com os países asiáticos pelo mercado mundial devem ser reduzidas com o aumento do dólar. “O Brasil sempre teve uma trajetória positiva na disputa e agora com o dólar mais alto temos mais condições de competir no mercado”, argumenta.

Família
O sucesso isolado da Lupo no mercado brasileiro reflete na produção, entre seus funcionários, ao seguir as instruções de seu fundador, Henrique Lupo. Uma placa com uma frase do pensador alemão Friederich Schiller, na porta da empresa em homenagem ao criador da empresa, explica a intenção: “Não é a carne nem o sangue, e sim o coração que nos faz pais e filhos”.

“Seguimos a cabeça do nosso fundador, como empreendedor”, afirma Cabral Júnior, relembrando a principal característica de Henrique Lupo, avô da atual presidente da empresa, Liliana Aufiero. “Na década de 1940 ele chegou a construir uma casa para cada funcionário, mas quando a fábrica cresceu, perdeu a conta e deixou de fazer isso”.

Hoje, o envolvimento é mantido com a preocupação com as funcionárias, que representam cerca de 80% do quadro de trabalhadores. Na fábrica, existe até creche para os filhos delas. “A Lupo tem que ser tratada como uma segunda casa por elas, para virem trabalhar felizes”.

Fonte: G1

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