Curso dará ênfase à inteligência

Ainda não há escola que forme inventores, mas já há curso destinado a preparar especialistas em propriedade intelectual com ênfase em inteligência tecnológica. Ou seja, profissionais capazes de coordenar equipes para transformar a propriedade intelectual em bons negócios para a empresa. O curso, que começa na Unicamp no segundo semestre, é uma resposta à crescente demanda de empresas que buscam formar seus próprios núcleos de propriedade intelectual, interessadas em inovação.

Trata-se de uma injeção de ânimo para um setor que mexe com o presente e o futuro de todos, mas que ainda enrosca numa burocracia do passado. O Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), instituição onde desembocam todos os registros de patentes, conta com 198 analisadores quando precisaria de 700. Os processos se arrastam por até 14 anos.

Da parte das empresas, a falta de cultura e de tradição em inovação tecnológica limitam avanços e ganhos da indústria. “O caminho é árduo, sobretudo pela ausência de uma cultura da propriedade intelectual nas empresas”, diz Júlio Cesar Moreira, diretor de patentes do Inpi. “É importante montar núcleos de gestão que capacitem a empresa para avaliar qual tipo de propriedade intelectual será aplicada em determinado negócio.”

Muitas companhias ainda terceirizam a atividade de pesquisa e patente, mas a tendência cada vez maior é que as empresas criem seus próprios núcleos de propriedade intelectual. “Isso ocorre, sobretudo, nas empresas interessadas em inovação, em novos produtos. Esses núcleos dão suporte para as áreas de negócios, vendas e desenvolvimento, aumentando as chances de competitividade da companhia”, diz Patrícia Leal Gestic, diretora de Propriedade Intelectual da Inova Unicamp. A existência desses grupos “facilita muito a negociação de transferência de tecnologia porque esses profissionais já têm conhecimento e entendem as necessidades relacionadas ao direito de propriedade industrial“, afirma Patrícia.

Pensando na importância desses núcleos, a Inova lançará, no segundo semestre deste ano, o primeiro curso de especialização voltado para a indústria e com o objetivo de formar especialistas em propriedade intelectual e ênfase em inteligência tecnológica. O curso será de 360 horas, quinzenal e terá de 25 a 30 alunos. “É voltado para empresas que querem ter uma competência interna nas áreas de proteção, contrato e relacionamento com universidades”, diz a diretora da Inova.

O núcleo da Unicamp vem alcançando uma média de 70 patentes por ano, todas analisadas, aprovadas e depositadas no Inpi. “Fora as patentes, temos também programas de computadores com transferência de know-how para as empresas e nesse ano tivemos uma transferência importante para o setor de alimentos”, diz Patrícia. Segundo ela, Unicamp tem um portfólio de mais de 80 patentes concedidas e 866 patentes vigentes em várias áreas tecnológicas.

Esse número crescente de patentes – que se verifica também em outros centros de pesquisa – reflete a preocupação das companhias com a propriedade intelectual. “Temos empresas hoje, e não só as grandes, que estão com a cultura de propriedade intelectual muito mais fortalecida, com núcleos formados. Cresce a noção de que sem a propriedade intelectual não serão bem sucedidas”, afirma Moreira, diretor do Inpi. Em 2013, o instituto somou 34 mil depósitos de patentes, com um crescimento constante em torno de 10% ao ano, na última década.

A transformação da propriedade intelectual em negócio se dá com parcerias entre a universidade – ou instituto de pesquisa – e a empresa, tendo como objeto comum um produto, processo ou um novo dispositivo mecânico. Em geral, são tecnologias que estão em estágio de amadurecimento e que necessitam de desenvolvimento complementar. O mais comum é a transformação de uma descoberta em laboratório para um produto ou processo com aumento de escala.

Essa transformação acaba sendo realizada dentro do ambiente industrial com o propósito de atender às necessidades da empresa. A “produtação”, como esse processo de aumento de escala é chamado, precisa contar com a interface da empresa, de forma que possa atender às expectativas do mercado nas mais diversas áreas.

“A Unicamp é multidisciplinar e atende a todos os tipos de empresas e necessidades, seja da área química, de saúde, odontológica, de alimentos. São dezenas de empresas por mês que procuram tecnologia nas mais diversas áreas”, diz Patrícia, da Inova.

Hoje, todos os processos industriais – ou negócios, mais genericamente – têm a capacidade intelectual envolvida, seja tecnologia da informação, fármacos, mecânica, eletrônica, eletricidade, diz o diretor do Inpi. “E temos as patentes que são prioritárias dentro do instituto, como as tecnologias renováveis”, completa.

Essas patentes prioritárias fogem das filas e prazos, que costumam ser longos. Após o depósito da patente no Inpi, o interessado espera por três anos para saber quando sua demanda será examinada. O que é depositado hoje só poderá ser analisado dentro de três anos, como prevê a legislação. Só então entra na verdadeira fila que hoje toma entre 8 e 14 anos, dependendo da área tecnológica. Segundo Moreira, a área de patentes do Inpi conta hoje com 198 examinadores e precisa chegar a 700 para oferecer prazos “adequados”.

Fonte: Valor Econômico S.A.

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