Bancos aceleram TI com sistema pré-fabricado

As salas e corredores da Cidade de Deus, como é conhecida a matriz do Bradesco, em São Paulo, foram testemunhas de um movimento intenso no primeiro fim de semana de maio. Entre profissionais de tecnologia e negócios, mais de 200 pessoas engrossaram o burburinho que tomou conta do local desde as primeiras horas do sábado e se estendeu até o fim do domingo. Convocada às pressas, a força-tarefa dedicou um esforço ininterrupto para iniciar a adaptação dos sistemas do banco às novas regras da poupança, anunciadas dois dias antes.

 

Em vigor desde 4 de maio, a medida exigiu que as equipes de tecnologia da informação (TI) dos bancos criassem, em tempo recorde, uma maneira de calcular os saldos e lançamentos e informá-los para cada cliente em duas modalidades distintas. Como agravante, foi preciso desenvolver uma aplicação específica para cada canal de relacionamento, dos caixas instalados nas agências até o internet banking.

O exemplo mostra como os grandes bancos brasileiros tornaram-se dependentes dos sistemas que eles mesmos implantaram nos últimos anos para acelerar operações e reduzir custos. O alto grau de automatização exige manobras de guerra, como a do Bradesco, na hora de se adaptar a novas regras. Em contrapartida, permite que as instituições financeiras ofereçam, em tempo relâmpago, serviços que podem se tornar uma vantagem competitiva.

O volume de recursos dedicado pelos bancos à área de TI mostra como a corrida tecnológica é intensa no setor. Os investimentos saltaram de R$ 11,7 bilhões em 2007 para R$ 17,9 bilhões em 2011, segundo dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Até 2015, a previsão é que os aportes aumentem 45%.

Os investimentos são impulsionados, em grande parte, pela multiplicidade de canais de atendimento, um cenário muito diferente do existente tempos atrás, quando o correntista usava a agência bancária para fazer quase tudo de que precisava.

Atuando no setor desde o início da década de 70, Aurélio Conrado Boni, vice-presidente executivo de tecnologia do Bradesco, lembra que, naquela época, o gestor de TI desligava os computadores quando terminava o expediente e ia embora para casa. “Isso não existe mais. Com o avanço da tecnologia, os clientes passaram a exigir a mesma experiência, rapidez e conveniência em qualquer canal de contato com os bancos. É preciso manter tudo isso funcionando, 24 horas por dia, sete dias por semana”, diz.

Com tantos canais e produtos diferentes, o desafio para os bancos é não cair no risco de tratar um único cliente de maneiras diferentes, dependendo do canal utilizado. Para os departamentos de TI, isso significa garantir a integração dos sistemas, que antes eram estanques e não precisavam interagir uns com os outros.

“Os bancos começaram a perceber que a manutenção dessa infraestrutura tornava os processos muito mais lentos e caros, além de não ir ao encontro das novas exigências dos clientes. Hoje, 100% de qualquer operação passa por algum tipo de infraestrutura tecnológica”, diz Luis Antonio Rodrigues, diretor setorial de tecnologia da Febraban e diretor de TI do Itaú Unibanco.

Foi essa exigência de integração que levou os bancos a dar uma espécie de pulo do gato tecnológico, com a criação de uma base de componentes comuns a todos os softwares usados em suas operações. Com isso, em vez de começar do zero toda vez que é convocada para criar uma nova aplicação, a equipe de TI conta, logo de início, com uma espécie de base sobre a qual acrescenta novas partes.

“É como se você tivesse o chassi pronto de um carro e fosse acrescentando peças de acordo com o pedido do cliente. Esse modelo reduz custos, queima etapas de desenvolvimento e facilita a adoção de novas tecnologias“, explica Anderson Itaboraí, gerente executivo de TI do Banco do Brasil. Com um orçamento de R$ 2 bilhões reservado para a área em 2012, o banco vem destinando parte desses recursos à integração de sistemas.

Foi esse recurso que facilitou o cumprimento dos prazos de adaptação do Bradesco às novas regras de remuneração da poupança. O banco concentrou investimentos de R$ 1 bilhão nos últimos seis anos no projeto de renovação de seu ambiente de software. Atualmente, cerca de 80% dos sistemas usados pela instituição rodam sobre uma estrutura padrão de aplicações. Se não tivesse investido nessa reconstrução, provavelmente o Bradesco teria levado algumas semanas para fazer o que consegue concluir em poucos dias, diz Boni. “O grande desafio nesse caso foi o fato de que o volume de transações dobrou, mas não o tempo de processamento. Só no primeiro dia das novas regras, o Bradesco acolheu 1,4 milhão de depósitos”, diz o executivo.

O HSBC também aproveitou o modelo de base comum para acelerar o lançamento de produtos. Há uma década, o tempo médio para viabilizar uma oferta para o cliente era de doze meses, diz Leignes Andreatti, responsável pela área de TI do HSBC. “Hoje, com os recursos disponíveis e o envolvimento da tecnologia, esse prazo médio é de um mês e, em alguns casos, pode levar apenas um ou dois dias”, diz o executivo.

A modernização dos recursos de TI está no radar da Caixa Econômica Federal. Embora não revele o investimento, o banco planeja aumentar em 40% seu orçamento de TI para 2013. Grande parte desses recursos será destinada à renovação de um ambiente que conta com sistemas desenvolvidos há mais de 25 anos. “O banco entendeu que é preciso garantir maior sinergia entre nossos softwares”, diz Roberto Zambon, diretor de TI da Caixa.

Neste ano, a Caixa teve de redobrar seus esforços para criar em um mês os sistemas para o pagamento do “Bolsa Estiagem” e do “Brasil Carinhoso”, programas sociais do governo federal.

Fonte: Valor

Publicações relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *