Avança pesquisa com alface transgênica

A Embrapa deu início a testes de campo do que pode ser um importante aliado à saúde pública: o alface enriquecido com ácido fólico. A nova variedade da hortaliça, que teve alterações genéticas realizadas pelos cientistas, conseguiu elevar em 15 vezes a quantidade de ácido fólico em relação à alface convencional, suprindo em 80% a necessidade diária de um adulto.

Se aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a autoridade designada para analisar organismos geneticamente modificados no país, a alface transgênica será uma alternativa importante para o combate da deficiência de ácido fólico, que gera desde má formação em bebês e problemas cardíacos a, segundo estudos mais recentes, depressão.

“Temos hoje uma tecnologia na mão que precisamos transformar em produto. A nossa expectativa é que isso aconteça em cinco anos”, diz Francisco Aragão, pesquisador e responsável pelo laboratório de engenharia genética da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, unidade à frente do projeto.

Iniciada em 2007, o enriquecimento da alface mostrou resultados satisfatórios no que os cientistas chamam de ambiente controlado – ou seja, dentro do laboratório. A pesquisa tomou como base dois genes retirados de uma planta-modelo (a Arabidopsis thaliana) e inseridos em plantas de alface. Um dos experimentos elevou em sete vezes a quantidade de ácido fólico, e o outro em 15 vezes.

Transposto ao dia-a-dia, isso significa que a Embrapa conseguiu criar uma alface similar ao espinafre em termos de quantidade de ácido fólico, com 400 microgramas a cada 100 gramas. O alface clássico contém entre 12 e 20 microgramas na mesma proporção.

As folhas foram oferecidas a coelhos e, em um segundo momento, serão levadas também a camundongos, de forma a identificar o impacto dessa vitamina no organismo. Segundo Aragão, os animais alimentados com a versão geneticamente alterada tiveram o teor de ácido fólico duplicado em uma semana. “Mas ainda vamos fazer cruzamentos entre essas duas variedades para tentar elevar mais a presença de ácido fólico”, afirma.

A escolha da alface se deu pelo fato de a folha ser a mais consumida no mundo. Além disso, é servida in natura, o que ajuda a manter suas propriedades. Segundo ele, o problema de outras folhas ricas em ácido fólico – geralmente associadas a verduras escuras – é que elas são consumidas cozidas, prejudicando a sua absorção.

“Cerca de 70% do ácido fólico é perdido durante o processamento ou aquecimento do alimento”, diz Aragão. É o caso das farinhas com ácido fólico, exigência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que entrou em vigor em 2004. “A maior parte se perde na hora que se processa essa farinha, que se faz um macarrão ou bolo. Sobra uma parte apenas residual”.

Isso explica, por exemplo, o alto índice de deficiência severa de ácido fólico entre a população chinesa, de 30%. Apesar de serem os maiores consumidores mundiais de hortaliças, sua dieta alimentar está baseada em vegetais e legumes cozidos. “A deficiência em ácido fólico é um problema mundial. Estima-se que entre 20% e 30% da população dos países em desenvolvimento tenham isso. Nos pobres, chega a 60%”, afirma Aragão.

Os esforços para colocar no mercado a primeira variedade transgênica de alface levaram em consideração também a aceitação pública do produto. Nos últimos anos, a academia reorientou seus projetos de forma a minimizar a rejeição da população e não correr o risco de tê-los engavetados pelas autoridades nacionais. Nesse sentido, ao contrário das pesquisas passadas, nas quais os cientistas introduziam genes de animais em plantas, os estudos atuais passaram a privilegiar a troca de genes entre espécies ou grupos similares.

“Até tínhamos um gene retirado de um mamífero e introduzido em uma alface que estava apresentando bons resultados. Mas preferimos abandonar o projeto. O cientista não pode estar dissociado da realidade. A pressão pública redirecionou as nossas pesquisas”.

Fonte: Valor Econômico.

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