Dez anos após ir a R$ 4, dólar a R$ 2 reflete novo Brasil

Por José de Castro | De São Paulo

Dez de outubro de 2002. Há exatamente dez anos, o mercado de câmbio no Brasil vivia um de seus momentos mais críticos, provavelmente o pior desde a maxidesvalorização do real, ocorrida três anos antes. Temendo um calote da dívida que mergulhasse o país numa crise profunda caso o então candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, fosse eleito, investidores demandaram dólares numa magnitude sem precedentes, fazendo a moeda americana disparar e bater o recorde do Plano Real, em R$ 4,00, máxima até hoje não superada.

Esse cenário teve como pano de fundo um quadro já não muito propício aos emergentes, em meio ao impacto do pedido de concordata da gigante americana do setor de energia Enron, em dezembro de 2001, e à crise econômica na Argentina, que colocou a América do Sul na linha de tiro de investidores estrangeiros.

 Passada uma década, o quadro que se vê é bastante diferente. A volatilidade que sobrava naquele período hoje falta ao mercado de câmbio doméstico. O dólar não sai do intervalo entre R$ 2,00 e R$ 2,10 desde julho, a volatilidade histórica caiu a mínimas e os volumes diários no mercado à vista recuaram cerca de 15,5% no acumulado deste ano ante o mesmo período de 2011, em meio à escalada do tom do governo contra a taxa de câmbio valorizada.

“A volatilidade extrema que tivemos na eleição do Lula decorreu, além de questões políticas, da falta de reservas e também da visão de que, se o real se desvalorizasse, o Brasil entraria numa situação fiscal complicada”, avalia o gestor da InvestPort Dany Rappaport.

Rappaport lembra que o BC gastou boa parte das já modestas reservas internacionais para tentar amortecer a disparada do dólar, que iniciou o ano em cerca de R$ 2,30, superou a barreira dos R$ 3,00 no fim de julho e em outubro bateu os R$ 4,00 na máxima histórica (R$ 3,99 no fechamento), acumulando um salto nominal de quase 74% em pouco mais de dez meses. Em termos reais, a alta foi de 52,7%.

Vale lembrar que a inflação no período estourava a meta, acumulando entre janeiro e outubro de 2002 um salto de 6,98% e fechando o ano em 12,53%, pelo IPCA. Houve uma intensa saída de capitais do país, com oito meses seguidos de fluxo cambial negativo [entre maio e dezembro], fechando o ano com um déficit de dólares de US$ 12,989 bilhões, o terceiro pior de toda a série histórica do BC, iniciada em 1982.

O BC começou 2002 com US$ 35,866 bilhões em reservas internacionais, segundo o conceito liquidez internacional. Ou seja, o país tinha reservas suficientes para bancar pouco mais de sete meses de importações, sendo que, pela teoria econômica, o mínimo deveria ser de nove meses.

No fim de 2002, as reservas somavam US$ 37,823 bilhões, pouco acima do valor em que se encontravam em janeiro. Apenas em outubro, a queda foi de US$ 2,5 bilhões. Pode parecer pouco, principalmente considerando as intervenções feitas nos últimos três anos, mas há que se considerar que a proporção das atuações sobre o “colchão de liquidez” brasileiro se situava na época em torno de 10%, o dobro da registrada entre outubro de 2008 e fevereiro de 2009, por exemplo.

No fatídico dia 10 de outubro, profissionais do mercado de câmbio atribuíam a disparada do dólar a uma forte demanda quase que restrita ao mercado à vista, que sofria com uma escassez acentuada de moeda. O temor de que Lula fosse eleito e afastasse o país das diretrizes da boa política econômica servia como justificativa para uma intensa pressão por parte do mercado ligada ao vencimento de US$ 3,67 bilhões em dívida cambial no dia 17 daquele mês.

Ao longo de outubro, o BC fez diversos leilões de resgate antecipado e rolagem dos títulos cambiais, entre eles swaps, notas do Tesouro corrigidas pela variação da taxa de câmbio, mas fez a rolagem e o resgate antecipado de menos de 20% do volume a vencer.

Como a liquidação financeira ocorreria no dia seguinte e os papéis resgatados seriam corrigidos pela variação cambial, os bancos pressionaram o dólar para cima, buscando maximizar os ganhos, movimento que contribuiu para a disparada da moeda americana.

Operadores lembram que comentários feitos no dia 9, pelo então presidente do Banco Central, Arminio Fraga, também ajudaram a catapultar o dólar. A expectativa de parte do mercado era de que o presidente do BC anunciasse medidas para conter a escalada do dólar, o que não ocorreu. Na ocasião, Fraga cobrou mais clareza dos candidatos à presidência e eximiu o governo da responsabilidade pela instabilidade.

“O fato é que não havia dólares para vender. Todo mundo estava remetendo dinheiro para o exterior, temendo, por exemplo, medidas que obrigassem o dinheiro a ficar no país. Lembro que o resultado da rolagem dos papéis cambiais chegou a ficar negativo, porque você simplesmente não achava dólar”, lembra Fabio Fender, especialista em opção de juros da Icap, que na ocasião chefiava a mesa de câmbio de outra corretora.

“Os ânimos se acalmaram depois que o Lula lançou a ‘Carta ao Povo’, mas ainda assim tivemos momentos de estresse, que só diminuíram quando o mercado entendeu que o Brasil honraria seus compromissos, que não mergulharia numa sombra política”, afirma ele, referindo-se ao documento lido por Lula em junho de 2002 a uma plateia de empresários e jornalistas.

Fender chama atenção para o fato de a intensidade da valorização do dólar em 2002 ter sido de longe superior ao movimento de queda nos anos seguintes. “Isso mostra que havia um sentimento de medo dominando, que se converteu nos anos seguintes em confiança. Tanto que, se você olhar a curva do dólar nesses dez anos, o gráfico é todo para baixo”, afirma, citando a estabilidade econômica alcançada pelo país e o bom momento da economia mundial como fatores que derrubaram o dólar nos anos seguintes, levando a moeda em 2008 e 2011 a mínimas não vistas desde 1999, pouco acima de R$ 1,50.

Nesse sentido, o diretor de câmbio da Pioneer Corretora, João Medeiros, chama atenção hoje para a outra “realidade” do câmbio. “Naquela época, a volatilidade foi extrema, sendo que havíamos saído do regime de câmbio fixo poucos anos antes. Hoje, pelo visto, voltamos a ter um câmbio tabelado, embora não oficialmente, mas numa situação diferente, sem fuga de capitais e com uma economia bem mais relevante”, avalia o diretor.

Medeiros acredita que, no curto e médio prazos, o intervencionismo do governo e o quadro externo devem manter o dólar acima dos R$ 2,00, com a moeda eventualmente testando esse patamar.

Fender vai na mesma linha e destaca que o BC já deixou muito claro ao mercado qual patamar deseja para o dólar. “Ele não vai abrir mão dos R$ 2,00, acho que nem se a inflação começar a preocupar de vez, porque existe uma preocupação muito grande do governo, e do próprio BC, com o nível da atividade”, diz o profissional.

Rappaport vê o dólar nos atuais níveis no curto prazo, mas no médio e longo prazos, acredita que o real vá se depreciar, porque é uma moeda valorizada e por conta da piora nas contas externas.

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