Calçados e vestuário reagem com desoneração

10/09/2012 – Valor Econômico

Por Marta Watanabe e Rodrigo Pedroso

Como resultado da maturação de medidas do governo, principalmente a desoneração da folha salarial e o novo nível do dólar, a indústria de vestuário e a de calçados dão sinais de recuperação, com melhora de desempenho de produção industrial e de criação de empregos acima da média da indústria de transformação. O mercado internacional também voltou a entrar no radar dos dois setores, que já começaram a reduzir preços de exportação. A expectativa é de melhora no segundo semestre, embalados pela sazonalidade favorável e ampliação do benefício da desoneração.

Em julho, o setor têxtil e de vestuário criou número de vagas seis vezes maior que o de julho de 2011. O desempenho fez o segmento gerar 2,1% mais postos no acumulado de janeiro a julho. Em julho, a indústria de transformação também teve elevação na criação de empregos, mas de apenas 4,7%. Os calçadistas também tiveram evolução acima da média. Em julho tiveram alta de 16% na geração de empregos. No acumulado houve redução de saldo de 1,7%. A perda, porém, é menor que a da indústria de transformação, que criou 43,4% menos empregos no acumulado. Os dados são do Ministério do Trabalho.

Desde dezembro os dois segmentos foram beneficiados com a troca da cobrança da contribuição previdenciária de 20% sobre folha pelo recolhimento de 1,5% sobre a receita. Aguinaldo Diniz, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), lembra que a desoneração contribui de forma conjunta a outras medidas importantes, como a redução da taxa de juros e a desvalorização do real.

A geração de mais postos de trabalho foi acompanhada de melhora na produção. Em junho a produção industrial do setor de vestuário e acessórios estava com queda de 14,1% em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em julho, a redução de produção se manteve, mas com queda mais amena, embora ainda representativa, de 6,4%. A indústria de calçados saiu de uma queda de 6,7% em junho para redução de apenas 0,7% em julho. A indústria de transformação também teve melhora no nível de produção, mas em menor escala, saindo de uma redução de 5,9% em junho para queda de 3% em julho.

Para Julio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), calçados, têxteis e vestuário mostraram desempenho “menos ruim” nos últimos meses. Para ele, todas as ações do governo tiveram influência, mas as que mais contribuíram foram o câmbio e a desoneração da folha. “A economia não melhorou drasticamente nos últimos meses, o que levaria por si só a uma elevação da indústria. As exportações também não melhoraram, pois o mercado externo está em retração. A não influência desses fatores deixa mais claro que as medidas do governo é que fizeram diferença sobre a indústria.”

O desempenho da produção, porém, ainda acumula perda de janeiro a julho. O setor de vestuário tem queda de 12% no acumulado e o de calçados, redução de 4,4%. José Carlos Brigagão do Couto, presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca (Sindifranca), diz que o primeiro semestre foi difícil. “Em Franca conseguimos manter o mesmo nível de emprego de 2011, o que consideramos de bom tamanho.”

Couto, diz, porém, que houve melhora de encomendas em junho e julho, o que gera boa expectativa para o segundo semestre, quando a sazonalidade está a favor dos dois segmentos. “As famílias também estão endividadas e em vez de comprar linha branca e veículos, que têm benefício do IPI, comprarão bens mais acessíveis.”

Na contramão dos números gerais da indústria, a Döhler aumentou a produção em relação a 2011. A desoneração da folha teve efeito máximo porque a empresa não possui mão de obra terceirizada, e por isso tinha antes pesada contribuição previdenciária. A desvalorização do real ajudou a competir com o produto estrangeiro, principalmente o asiático. Nos seis primeiros meses do ano em comparação com igual período de 2011, a produção da empresa de peças de cama, mesa e banho cresceu 4,5%, com uso de 100% da capacidade e projeções de ampliação da fábrica para o segundo semestre. Segundo o diretor-comercial Carlos Alexandre Döhler, dez novos teares entrarão em operação até dezembro.

Já Rogério Dreyer, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), explica que a desoneração não teve efeito uniforme. Os calçadistas que possuem alto nível de terceirização ficaram com carga tributária neutra na troca da contribuição cobrada sobre folha pela calculada sobre faturamento.

A gaúcha Roanna ilustra o efeito desigual da desoneração. Cerca de 90% de sua produção vai para terceiros. Seus 15 funcionários não integram a folha de salários da empresa que compra seus calçados. “E a desoneração também não teve efeito para nós porque pagamos os tributos pelo Simples”, explica Ana Paula Kunrath, diretora da empresa. Segundo dados da Abicalçados, 35% dos trabalhadores do setor estão em empresas de até cem funcionários, que tendem a usar o Simples.

Mesmo assim, a Roanna se beneficia da melhora do setor. Durante o primeiro semestre, diz Ana Paula, a produção foi, em média, cem pares/dia, bem abaixo da capacidade de 250 pares/dia. Mas ela diz que as encomendas melhoraram em junho e julho. No segundo semestre, diz, a empresa deve trabalhar na capacidade máxima.

Ana Paula diz que a segurança num câmbio mais favorável à exportação estimulou a empresa a voltar a exportar, algo que não fez em 2011.

Segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), em julho, o preço médio para exportação de vestuário e acessórios caiu 2,9% em relação ao mesmo mês do ano passado. O preço médio dos calçados e artefatos de couro também caiu 4,2%. Com preços menores, aumenta a capacidade de competir no mercado internacional. O setor de couros e calçados chegou a apresentar 1,7% de aumento no volume de exportação em julho, embora ainda tenha perda de 9,3% no acumulado de janeiro a julho.

Rafael Schefer, diretor do Grupo Priority, ao qual pertencem as calçadistas West Coast e Cravo e Canela, diz que é difícil avaliar se o setor calçadista está em situação melhor do que o ano passado. No entanto, ele afirma que o mercado interno deve continuar crescendo, assim como as exportações estão mais competitivas com o câmbio. “O mercado não está em seu melhor momento, mas está andando. As empresas que estão fazendo diferente, evoluindo, vão continuar.”

O grupo, diz o executivo, está com produção física maior. Segundo Schefer, a desoneração inicial da folha não teve muito efeito, mas fez diferença desde agosto, quando a contribuição calculada sobre receita caiu de 1,5% para 1%. Cerca de 20% do faturamento do grupo vem de exportação, o que torna o benefício mais vantajoso, já que a receita do exterior fica fora do cálculo da contribuição.

A perspectiva para este ano, é que o grupo aumente até 25% do faturamento, ajudado também pelo aumento dos investimentos, com a instalação de máquinas novas e a desvalorização do dólar. A estimativa é que as duas empresas produzam 4 milhões de pares de calçados em 2012.

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