Interação entre universidade e empresas ainda é desafio no Brasil

Interação entre universidade e empresas ainda é desafio no Brasil

A universidade é um ambiente que permite ao aluno conhecer a área do conhecimento estudada durante os anos de graduação. Porém, a preparação para encarar o mundo depois deste ciclo ainda é reduzida. Um exemplo disso é que falta apoio para que as empresas desenvolvidas dentro do ambiente acadêmico possam florescer, de fato. As causas são diversas: vão desde impeditivos legais até à própria falta de uma cultura empreendedora dentro do ambiente acadêmico.

Entretanto, há quem consiga fugir destes percalços. É o caso da Movile, empresa que desenvolve aplicativos para celulares, smartphones e tablets, com faturamento anual de R$ 600 milhões. Fabrício Bloisi , CEO da companhia, criou um jogo quando ainda era estudante do instituto de Computação da Universidade de Campinas (Unicamp) e lá fez a companhia nascer e crescer para 20 países.

Para o diretor-executivo da Inova/Unicamp, Milton Mori, exemplos como esse são comuns dentro da instituição. Ela abarca companhias de ex-alunos e ex-professores que nasceram dentro da universidade. São as chamadas empresas filhas, que atualmente somam empresas ativas.

“Elas também licenciam patente da Unicamp e a usam como atividade principal. Com a nossa pesquisa, em novembro do ano passado, estamos chegando a 17 mil empregos através dessas nossas empresas filhas. Um levantamento que vamos lançar em setembro mostra que o faturamento está em mais de R$ 3 bilhões”, destacou Mori, em audiência pública na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) do Senado Federal.

Entretanto, para os casos bem-sucedidos, há também os problemas. Muitos deles relacionados à rigidez e às dificuldades impostas pelo marco regulatório. A burocracia impede, por exemplo, que os pesquisadores das universidades que recebam fomento de agências estatais tenham acesso à propriedade da patente, que fica toda para a instituição de ensino. E nem mesmo podem participar de uma companhia que tenha direito a essa patente. Isto, segundo Mori, desestimula o empreendedorismo dentro da academia.

“É muito difícil para um pesquisador que recebe recurso do CNPq e da Fapesp, ou da Capes ou da Finep. Essa propriedade fica 100% na universidade. Ele não consegue fazer mais nada, só pode licenciar, mas fica impedido de ser diretor ou acionista. Quer ser dono da essa empresa, mas não é possível nem com o tempo parcial, nem aposentado”, reclamou.

Problema semelhante é encontrado em Recife (PE). O Porto Digital é um dos empreendimentos inovadores de maior sucesso no Brasil e base para muitas iniciativas similares pelo País afora. Porém, o sucesso no desenvolvimento de inovações vem acompanhado de problemas quando o assunto é legislação. Não a relacionada à atividade inovativa, mas trabalhista.

O ambiente do Porto Digital segue a tendência do Vale do Silício, com ampla liberdade para os pesquisadores utilizarem o tempo como bem entenderem. Porém, a legislação trabalhista tem sido um percalço para uma das principais companhias do local, como o Centro de Estudos de Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R), que recebeu mais de cinco mil autuações por conta de falhas no registro de ponto dos funcionários, segundo o especialista Cláudio José Marinho Lúcio.

O custo de R$ 900 por cada autuação, de acordo com Marinho Lúcio, minaria completamente a capacidade de investimentos do C.E.S.A.R em novas soluções inovadoras, uma vez que o lucro da companhia seria utilizado para pagar as multas.

“Lucro, numa atividade como essa de pesquisa e inovação, significa a única forma de utilizar recursos livres para investimento em inovação. Porque a maior parte dos recursos que vão para esses institutos, pesquisas e empresas, para inovoção, para pesquisa e desenvolvimento, estão absolutamente vinculados a uma legislação que nós criamos. A legislação é absolutamente amarrada”, diagnosticou.

Saída

O problema do estímulo à inovação na academia também passa por criar um ambiente propício a essa atividade e por estimular os alunos a buscarem novidades. Só assim, avalia o decano de Administração da Universidade de Brasília (UnB), Luís Afonso Bermúdez, é possível criar as condições para o desenvolvimento da inovação.

“Para que a gente tenha inovação e empreendedorismo, temos que ter transgressão e um ambiente que permita isso, com curiosidade e criatividade. Hoje, quem vai produzir não recebeu bagagem para pensar diferente. Nós não estamos ensinando nossa juventude a pensar na coisa nova”, resumiu.

Gaveta cheia

Outro empecilho é a questão do backlog. Nos últimos anos, o número de pedidos de patente cresceu bastante no Brasil. O ritmo de análise pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), por outro lado, não acompanhou a demanda. Se em 2003 o prazo para a concessão era de sete anos, em 2013 ele saltou para 11 anos. As estimativas são de que cada examinador tem 980 processos por ano, enquanto nos Estados Unidos esta proporção é de 77 patentes por profissional.

Para Milton Mori, do Inova/Unicamp, é fundamental uma reestruturação completa no instituto. “O sistema de registro do INPI é demorado e não sei como resolver. Tanto é que não tem ninguém que está querendo pegar o INPI. Porque tem que arrumar a casa. Tem que ter autonomia, uma reestruturação forte para avançarmos na inovação. Sem isso, o País não vai”, disparou.

Fonte: Agência Gestão CT&I (Texto de Vicente Melo / Foto USP)

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